quinta-feira, 1 de abril de 2021

A história de D. Marieta e seu filho Ertinho

     Nossa postagem de hoje apresenta a primeira parte dessa história de Dona Marieta e seu filho Ertinho. Em um tempo em que a inclusão não acontecia e os preconceitos eram mais visíveis, confira:


    Hoje, “Dia Internacional da Síndrome de Down, não poderia deixar de começar a contar a história de D. Marieta e seu filho Ertinho! 

No dia 29 de janeiro de 1956, na fazenda Santana do Paiol, nascia o 7º filho de D. Marieta e seu Ieca (José Aureliano). Filho temporão, a menina acima dele, Maria Helena, já estava com sete anos! Tinha o Sebastião já com doze, Salvador com quatorze, João com quinze, José com dezessete, a Noemia que deveria ter dezesseis, faleceu com dois anos de idade. Sendo assim, a mamãe já tinha muita experiência com partos, choros de recém-nascidos. Eu nasci um ano e quatro meses depois dele e vivemos juntos a história que me proponha contar. O parto, como todos os demais, foi na roça. A parteira a tia Francisca. A tesoura a mesma que havia cortado todos os outros 6 cordões umbelicais, mas ao nascer o menino, a experiente mamãe, viu que algo estava diferente, a criança não chorou! Ao olhar para a criança percebeu que ele era diferente de todos os outros, na sua vasta experiência com recém-nascidos nunca havia visto nada igual, pensou que a criança ia morrer e cuidou logo de batizar! O pai queria que se chamasse Aérton, em homenagem ao famoso apresentador de rádio Aérton Perlingeiro, mas a mãe não concordou, disse que teria que ter nome de um santo, já que ia precisar de muita proteção. Decidiram então por Antônio Aérton, mas foi registrado como Antônio Aelton e todos passaram a chamar por “Ertinho”! Desse dia em diante começou uma história de preconceitos, de discriminação e também de muita luta de uma mãe pelos direitos de seu filho com Síndrome de Down. Assim que pode, Dona Marieta e Seu Ieca, arrearam o cavalo, entraram na charrete e vieram na cidade trazer a criança ao médico para saber o que o filho tinha. Queriam entender porque a criança ficava sempre com a boquinha aberta, porque tinha aqueles olhinhos rasos que não se parecia com ninguém da família, porque chorava tão fraquinho e tinha tanta dificuldade para mamar! Acredito que esse dia foi muito triste para a minha mãe. O médico foi categórico e disse que a criança poderia morrer logo porque tinha um problema no coração, o que seria melhor porque se vivesse não iria falar, nem andar e nunca ia aprender nada, seria um imbecil, porque tinha uma “doença”, era mongoloide. Acho que foi esse nome que ele falou, não foi “síndrome de down”
. … 

Mamãe que está lendo este relato, já pensou ouvir isso? Melhor que morresse? Sem nenhuma esperança de andar, falar, aprender? Mas a D. Marieta, que era analfabeta, sabia apenas escrever o nome, não aceitou o diagnóstico, ou nos dias de hoje seria o “laudo”! Resolveu escrever outro. Eu não sei quando surgiram as fonoaudiólogas e os fisioterapeutas, mas sei quem 1956 nascia uma, por instinto maternal, na ânsia de mudar um diagnóstico, D. Marieta começou a desenvolver técnicas para estimular o filho. Movimentos com a boca, com as perninhas, bracinhos eram incansavelmente feitos com o Ertinho. Os irmãos mais velhos eram escalados para as terapias com o bebê. Com dois anos e seis meses ele andou. Valiam também todas as simpatias, promessas e benzeções para uma mamãe de muita fé! Valia até mesmo não ser ecologicamente correta, pois falaram para ela que se ele comesse a língua de um passarinho chamado “cham cham” (pica pau na verdade) ele iria falar rapidinho. Imagina se a Dona Marieta não fez a língua do bichinho na papinha pro filho!? Logo depois que andou ele começou a se expressar oralmente, no início apenas a irmã mais nova, eu, entendia o dialeto, mas com o tempo foi melhorando a fala e ampliando o vocabulário e passou a falar tanto, que ela se arrependeu de ter matado o passarinho. Por hoje, está bom! Amanhã contarei mais um pouquinho!


Ana Maria Costa Heto


6 comentários:

  1. Que história maravilhosa. Obrigada Ana por compartilhar com a gente. Que possamos ter mais mães estilo dona Marieta.

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  2. Nada nesse mundo sabe mais que o AMOR de uma MÃE!

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  3. Linda história...muita emoção do começo ao fim... gratidão Ana Heto..

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  4. Que delícia, essa história!! Queremos mais .... Obrigada por tantos detalhes, me senti parte.

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  5. Ana que lindo .
    A cada parágrafo escrito me sinto vivendo com vcs toda está riqueza .
    De lutas e vitórias.
    O que vale nesta vida e tudo isto olhar pra trás e ver .
    Que sua mãe fez verdadeira inclusão
    Essas lutas que faz gente lutar mais e mais .
    ABRAÇOS DA TIA Belll

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