Hoje iremos apreciar a terceira parte da História de Dona Marieta e seu filho Ertinho:
A retirada
Em 1965, dona Marieta precisou mandar sua outra menina para a cidade. Estava em idade escolar. O Ertinho, um ano mais velho, ficou para trás.
Agora eram as duas meninas morando sozinhas na cidade, uma de sete e a outra de 15 anos. Maria Helena estudava no período da manhã; Ana Maria no período da tarde. As irmãs se encontravam à noite. Aos sábados, de madrugada, pegavam o caminhão de leite do Sr. Geraldo Michelato e iam para a “roça”.
Maria Helena voltava no ônibus de domingo à tarde, porque tinha aula de manhã. Ana Maria voltava no caminhão de leite na segunda de manhã, assim economizava uma passagem.
Nem passava pela cabeça das meninas e da D. Marieta o que estava acontecendo com o Brasil. As redes sociais ainda eram bem primitivas. Na cidade, à tarde, as famílias se sentavam “na porta de fora da casa” e as crianças brincavam na rua. Numa cidade pequena do interior de Minas, o assunto era outro, o que “viralizava”, na rede social “boca em boca”, era quem casou, quem morreu, quantos alqueires o “fulano” comprou.
Evidente que na cidade tinham os não alienados, mas a informação não circulava “no boca a boca das portas das casas”.
Sei que D. Marieta, lá na roça, tinha muito medo do comunismo.
Sei que o João um dia escutou numa rádio da Argentina que o Brasil estava em estado de sítio.
Fiquei pensando o que poderia ser isso, pois o conceito de sítio que eu tinha era aquele pedaço de terra onde eu vivia.
Voltemos a nossa história.
Sobre a vida das meninas sozinhas na cidade, existem muitos fatos pitorescos. Por exemplo: como vocês imaginam que uma menina de 7 anos se orientava para saber a hora de ir para a escola?
Claro, a irmã mais velha explicou que quando ouvisse o primeiro apito da sirene da Cooperativa de leite, estava na hora de tomar banho e depois acender o fogão de lenha para esquentar o almoço que ela havia deixado pronto no dia anterior.
Como é que é? Uma menina sozinha, de 7 anos, acender o fogão de lenha?
Isso a professora não entendia, por mais que a menina explicasse quando chegava na escola suja de carvão.
D. Marieta foi então foi chamada na escola depois de muitos incidentes com a criança.
A melhor solução foi vender a fazenda e vir morar na cidade. A renda? Viria das casas que ela compraria para alugar.
E assim fez.
A fazenda foi vendida de “porteira fechada” como se dizia.
Ficaram pra trás o pé de manacá e as lindas roseiras, por anos cultivadas no jardim.
Ficaram os arados, as antigas e enormes serras de madeira do Seu Iéca, que ela conservava, por memória afetiva.
Ficaram as tachas de fazer farinha de milho e as de fritar o porco. As latas de colocar a carne de porco frita também ficaram.
Ficaram o Bainho e o Baião, com os seus arreios e a capa de montaria marrom, que acompanhava a família há anos.
Ficaram as galinhas e os porcos.
Ficou todo o gado. Todos da casa conheciam cada animal pelo nome.
Dos animais só pôde mudar para a cidade a “Chaninha”, uma gatinha tricolor, que as crianças não abriram mão. Os outros 7 bichaninhos ficaram para trás.
De algumas coisas, D. Marieta não abriu mão. Trouxe o pilão, o mancebo, o moedor e o torrador de café. As cuias para lavar arroz, uma enxada e um enxadão também seriam necessários para fazer uma horta.
Seria tudo muito novo e diferente.
Mas era preciso ir, sem olhar para trás. Novamente uma guinada na vida.
Ana Maria Costa Heto
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