segunda-feira, 5 de abril de 2021

Enfim, o Ertinho chega à cidade!



Na cidade, Ertinho usufruía de todos os passeios com a família.  

Íamos à missa, festas de casamentos, visitas à casa dos amigos da D. Marieta!

Íamos com ela ao fórum, pois, com crianças menores, tudo passava pelas mãos do juiz. 

Íamos até às visitas ao “Zé Chiquinha” na cadeia.

Com isso, o Ertinho passou a ficar muito conhecido e um dia me disseram que eu era irmã do “doidinho”. 

Acho que foi neste dia que me conscientizei da deficiência dele.

Quando eu morava na roça, não me lembro de perceber que meu irmão era diferente. Às vezes, minha mãe conversava comigo e dizia que eu devia cuidar dele.

Dizia que eu devia ficar de olho para não deixar ele fazer “arte”, mas eu não entendia bem o porquê.

Perguntei pra minha mãe por que o meu irmão era “doidinho”.  A resposta dela foi: ele não é doidinho. Ele é “retardado”. 

Imediatamente, Ertinho, que nos ouvia, retrucou: “Tadado, não”!

Pois é. Muito sabido para quem estava sendo chamado de “retardado”. Podia ter dificuldades para algumas aprendizagens, mas tinha muitas outras inteligências para serem desenvolvidas, não acham?

Sinceramente, amava meu irmão, mas me sentia diferente das outras crianças por ser irmã dele. Eu não queria que ele fosse assim. E comecei a acreditar que era a única pessoa no mundo que tinha um irmão diferente, pois não conhecia nenhum outro até minha adolescência.

Depois, descobri que existiam muitos outros, mas eles viviam escondidos, confinados dentro de suas casas.

No curso de magistério, quando D. Gilda Aloise era professora de Biologia, entendi que ele tinha um cromossomo a mais, que tinha Síndrome de Down, então expliquei para a D. Marieta.


Os problemas na cidade

Ertinho estava acostumado com a liberdade de morar na roça, podia andar, correr pela estrada. Agora teria que acostumar com o quintal de casa, e isso não foi nada fácil.

Ele saía para dar seus passeios e se perdia.

Imaginem a dificuldade para encontrar uma criança perdida na cidade?

Saíamos andando e perguntando quem tinha visto um menino e tinha que falar a descrição. E as pessoas diziam: ah, aquele “doidinho”?

Eu ficava tão constrangida em ter que responder que sim...

A busca era difícil, saía uma pessoa para cada canto da cidade e não tinha como saber se tinha sido encontrado.

Ah, que falta fazia um celular naqueles dias!

E a gente andava, andava e tinha que voltar em casa para ver se achou, e nada!

Quando começava a escurecer era terrível. Até que um “filho de Deus” como dizia a D. Marieta, chegava com ele.

E ele odiava quando era a polícia que achava!


Amanhã tem mais!


Ana Maria Costa Heto

Um comentário:

  1. O bom de ler este relato, é saber que D. Marieta jamais desistiu de lutar por ele. Ler nos faz refletir e ter forças, sobre nossas lutas diárias com nossas crianças Especiais.
    GRATIDÃO por dividir conosco 🙏

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