terça-feira, 6 de abril de 2021

História de Dona Marieta e seu filho Ertinho - Parte 5

E a história está a cada dia mais gostosa de se ler e muito inspiradora também! 


E hoje temos o privilégio de conhecer o Ertinho, um dos personagens principais dessa história!

Acervo Pessoal


Paramos nas fugidas e perdidas do Ertinho, não foi?

Pois bem. D. Marieta tinha que armar uma estratégia para seu filho não se perder mais.

Você não vai acreditar o quanto a mamãe sabia de inclusão!

No firme propósito de preparar o filho para a vida na cidade, ela saía com ele todos os dias. Mostrava os pontos de referência da cidade. O principal era a torre da igreja que, naquela época, podia ser vista em qualquer ponto da cidade.

Repetia insistentemente com ele: meu nome é Antonio Aelton Costa; minha casa é na Praça Dr Joaquim Mário 47, perto do Posto Guará; minha mãe é a Marieta Cezarina Silva.

Com o tempo ele aprendeu a passear!

Fazia suas visitas diárias à casa da irmã, ao cemitério para visitar o túmulo do pai, à igreja.

Um fato interessante dessa aprendizagem: quando completou a maioridade, a mãe, antes tutora, teve que se tornar agora curadora; ele teria que ser interditado. 

Sendo assim, Ertinho teve que ir à presença do juiz para comprovar a necessidade da interdição. 

E quais eram as perguntas básicas?

Qual o seu nome? Onde você mora? De quem você é filho?

Neste mini vestibular, quase que Ertinho foi aprovado e o processo arquivado. 

Por sorte, D. Marieta se esqueceu de ensinar a ele como reconhecer cédulas!

...

Ao relatar o êxodo rural da família, esqueci-me de falar sobre algo que D. Marieta   jamais deixaria para trás: seu oratório e sua legião de santos da devoção!

Ertinho fez questão de trazer a “Fátima” no colo, enroladinha numa toalhinha de linho branco bordado de Richelieu, que ficava sobre a mesa que servia de altar.

Agora na cidade, o hábito da D. Marieta de rezar o terço às três da tarde fora substituído pelas missas aos domingos e pela novena para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, todas as quartas-feiras, à noite. 

Fazia parte do Apostolado Sagrado Coração de Jesus. Tinha o compromisso todas as primeiras sextas-feiras do mês.

Vestia seu vestido azul marinho bem fechado, colocava uma fita vermelha, com um bordado do lado esquerdo. O bordado ficava num pedaço branco da fita. Era um coração vermelho cercado uma coroa de espinhos. Na ponta uma medalhinha.

O Ertinho era seu companheiro inseparável. De tanto assistir às missas, ele se dizia padre. A mãe o incentivava. Ela temia pelo início da adolescência e a iniciação sexual dele. 

Sempre que ele dizia que ia arrumar uma namorada, ela dizia a ele: não, você vai ser padre, não pode namorar!

Assim ela providenciou para ele todos os paramentos: ele tinha batinas, estolas, as taças para a consagração. A brincadeira de faz de conta era rezar a missa. Sabia todas as partes da liturgia.

Na missa verdadeira, ele sempre queria comungar, mas a mãe dizia que não poderia, que ele e a irmã eram crianças. 

Mas um dia a irmã, eu, fez primeira eucaristia e foi receber a comunhão. Ertinho não teve dúvidas. Piedosamente, pegou a fila com as mãos postas.

A mãe não sabia o que fazer!

Quando chegou a vez dele de receber a hóstia, o padre olhou seriamente para D. Marieta e desviou o cálice e a patena do menino.

Ertinho era sempre firme no propósito e não foi nada fácil convencê-lo a sair da fila.

Então, D. Marieta foi falar com o pároco. Foi falar com o Bispo, só não foi falar com o Papa.

Tinha certeza de que seu filho era um anjo, puro. Se ele não pudesse receber a comunhão, ninguém mais poderia. 

Depois de muita luta, ficou combinado que ele poderia comungar.

Na minha opinião, para a D. Marieta, a Semana Santa era a melhor época do ano. 

Mesmo quando ainda morávamos na roça, vínhamos pra cidade para participar. Ela fazia roupa nova pra todo mundo. 

Eu não entendia porque ela gostava tanto e muito menos porque tínhamos de vir. Quando criança, eu confesso que tinha medo daqueles santos de roupa roxa. Assustava com o barulho da matraca e com o cântico daquelas mulheres cobertas com um véu negro. 

Mas o pior mesmo, para mim, é que eu sabia que depois da procissão tinha a pregação. D. Marieta iria chorar muito. Eu não entendia como ela podia gostar daquilo.

O dia que ela mais chorava era a procissão do encontro, quando via Maria com aquele punhal no peito e o Cristo com a cruz nas costas.

Agora eu entendo que ela chorava todas as lágrimas que economizara pra ser firme na luta do dia a dia.

….

Uma brincadeira que o Ertinho gostava muito era a de escrever. Ele enchia inúmeros cadernos com garatujas, exatamente iguais. Então, D. Marieta pensou: quem sabe ele não aprende a ler e a escrever. O pároco da época, Monsenhor Mancini, abriu na sua escola profissionalizante, uma turma de ensino primário. A escola funcionava em um galpão onde na época era a saída para Passos. Era a escola São José, que hoje funciona lá na Vila Ipê. 

Como era uma escola filantrópica, o pároco permitiu que Ertinho frequentasse a sala. Acredito que aquela professora foi a primeira a receber um aluno com síndrome de Down nesta cidade. 

Se as escolas de hoje não estão preparadas para a inclusão, imagina aquela professora sozinha? Infelizmente não foi uma boa experiência.

As crianças ficavam muito agitados com a presença do colega diferente.

Ertinho não admitia que os colegas não obedecessem a professora e utilizava de meios nada pedagógicos para manter a disciplina.

A solução foi desistir.

….

Enfim chegou a APAE na cidade, e junto, a escola especial.

D. Marieta pensou que todos os seus problemas com a escolarização do filho estavam resolvidos. Correu pra fazer a matrícula. Na época, era o sonho de todas as mães com crianças deficientes.

E lá foi o Ertinho para a escola! Gostava demais da professora Celinha. Chegou até a aprender a letra “A”. Agora, ao invés da garatuja, fazia o “A”. Cadernos e mais cadernos cheios. 

Uma mochila cheia de cadernos que todos os dias ele levava para a escola.

Da época, muitos fatos pitorescos.

Contou-me uma funcionária que, num dia de chuva com trovoada, tocou a campainha da escola. Ao abrir a porta, eis que estava lá de uniforme, mochila nas costas, guarda-chuva encharcado, o aluno Antônio Aelton. Ao que ela disse: vamos entrar, a aula já começou, Ertinho respondeu: NÃO!!! Com essa chuva eu não venho, não! Tem que esperar passar! Fala pra D. Celinha que hoje não venho, não! Que responsabilidade!

Mas o ano acabou e o Ertinho tinha que mudar de turma. Ele não se conformava, queria a D. Celinha!

Um dia chegou em casa e disse que não ia mais para a escola.

Motivo? 

Lá só tinha doido!

Ele queria ir na escola da Ana. Escola de doido ele não queria mais!

Aí em pleno 2020 vem o decreto 10502!

E tem gente, morador de uma terra plana que concorda com ele!


Ana Maria Costa Heto

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