E a história está a cada dia mais gostosa de se ler e muito inspiradora também!
E hoje temos o privilégio de conhecer o Ertinho, um dos personagens principais dessa história!
Paramos nas fugidas e perdidas do Ertinho, não foi?
Pois bem. D. Marieta tinha que armar uma estratégia para seu filho não se perder mais.
Você não vai acreditar o quanto a mamãe sabia de inclusão!
No firme propósito de preparar o filho para a vida na cidade, ela saía com ele todos os dias. Mostrava os pontos de referência da cidade. O principal era a torre da igreja que, naquela época, podia ser vista em qualquer ponto da cidade.
Repetia insistentemente com ele: meu nome é Antonio Aelton Costa; minha casa é na Praça Dr Joaquim Mário 47, perto do Posto Guará; minha mãe é a Marieta Cezarina Silva.
Com o tempo ele aprendeu a passear!
Fazia suas visitas diárias à casa da irmã, ao cemitério para visitar o túmulo do pai, à igreja.
Um fato interessante dessa aprendizagem: quando completou a maioridade, a mãe, antes tutora, teve que se tornar agora curadora; ele teria que ser interditado.
Sendo assim, Ertinho teve que ir à presença do juiz para comprovar a necessidade da interdição.
E quais eram as perguntas básicas?
Qual o seu nome? Onde você mora? De quem você é filho?
Neste mini vestibular, quase que Ertinho foi aprovado e o processo arquivado.
Por sorte, D. Marieta se esqueceu de ensinar a ele como reconhecer cédulas!
...
Ao relatar o êxodo rural da família, esqueci-me de falar sobre algo que D. Marieta jamais deixaria para trás: seu oratório e sua legião de santos da devoção!
Ertinho fez questão de trazer a “Fátima” no colo, enroladinha numa toalhinha de linho branco bordado de Richelieu, que ficava sobre a mesa que servia de altar.
Agora na cidade, o hábito da D. Marieta de rezar o terço às três da tarde fora substituído pelas missas aos domingos e pela novena para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, todas as quartas-feiras, à noite.
Fazia parte do Apostolado Sagrado Coração de Jesus. Tinha o compromisso todas as primeiras sextas-feiras do mês.
Vestia seu vestido azul marinho bem fechado, colocava uma fita vermelha, com um bordado do lado esquerdo. O bordado ficava num pedaço branco da fita. Era um coração vermelho cercado uma coroa de espinhos. Na ponta uma medalhinha.
O Ertinho era seu companheiro inseparável. De tanto assistir às missas, ele se dizia padre. A mãe o incentivava. Ela temia pelo início da adolescência e a iniciação sexual dele.
Sempre que ele dizia que ia arrumar uma namorada, ela dizia a ele: não, você vai ser padre, não pode namorar!
Assim ela providenciou para ele todos os paramentos: ele tinha batinas, estolas, as taças para a consagração. A brincadeira de faz de conta era rezar a missa. Sabia todas as partes da liturgia.
Na missa verdadeira, ele sempre queria comungar, mas a mãe dizia que não poderia, que ele e a irmã eram crianças.
Mas um dia a irmã, eu, fez primeira eucaristia e foi receber a comunhão. Ertinho não teve dúvidas. Piedosamente, pegou a fila com as mãos postas.
A mãe não sabia o que fazer!
Quando chegou a vez dele de receber a hóstia, o padre olhou seriamente para D. Marieta e desviou o cálice e a patena do menino.
Ertinho era sempre firme no propósito e não foi nada fácil convencê-lo a sair da fila.
Então, D. Marieta foi falar com o pároco. Foi falar com o Bispo, só não foi falar com o Papa.
Tinha certeza de que seu filho era um anjo, puro. Se ele não pudesse receber a comunhão, ninguém mais poderia.
Depois de muita luta, ficou combinado que ele poderia comungar.
Na minha opinião, para a D. Marieta, a Semana Santa era a melhor época do ano.
Mesmo quando ainda morávamos na roça, vínhamos pra cidade para participar. Ela fazia roupa nova pra todo mundo.
Eu não entendia porque ela gostava tanto e muito menos porque tínhamos de vir. Quando criança, eu confesso que tinha medo daqueles santos de roupa roxa. Assustava com o barulho da matraca e com o cântico daquelas mulheres cobertas com um véu negro.
Mas o pior mesmo, para mim, é que eu sabia que depois da procissão tinha a pregação. D. Marieta iria chorar muito. Eu não entendia como ela podia gostar daquilo.
O dia que ela mais chorava era a procissão do encontro, quando via Maria com aquele punhal no peito e o Cristo com a cruz nas costas.
Agora eu entendo que ela chorava todas as lágrimas que economizara pra ser firme na luta do dia a dia.
….
Uma brincadeira que o Ertinho gostava muito era a de escrever. Ele enchia inúmeros cadernos com garatujas, exatamente iguais. Então, D. Marieta pensou: quem sabe ele não aprende a ler e a escrever. O pároco da época, Monsenhor Mancini, abriu na sua escola profissionalizante, uma turma de ensino primário. A escola funcionava em um galpão onde na época era a saída para Passos. Era a escola São José, que hoje funciona lá na Vila Ipê.
Como era uma escola filantrópica, o pároco permitiu que Ertinho frequentasse a sala. Acredito que aquela professora foi a primeira a receber um aluno com síndrome de Down nesta cidade.
Se as escolas de hoje não estão preparadas para a inclusão, imagina aquela professora sozinha? Infelizmente não foi uma boa experiência.
As crianças ficavam muito agitados com a presença do colega diferente.
Ertinho não admitia que os colegas não obedecessem a professora e utilizava de meios nada pedagógicos para manter a disciplina.
A solução foi desistir.
….
Enfim chegou a APAE na cidade, e junto, a escola especial.
D. Marieta pensou que todos os seus problemas com a escolarização do filho estavam resolvidos. Correu pra fazer a matrícula. Na época, era o sonho de todas as mães com crianças deficientes.
E lá foi o Ertinho para a escola! Gostava demais da professora Celinha. Chegou até a aprender a letra “A”. Agora, ao invés da garatuja, fazia o “A”. Cadernos e mais cadernos cheios.
Uma mochila cheia de cadernos que todos os dias ele levava para a escola.
Da época, muitos fatos pitorescos.
Contou-me uma funcionária que, num dia de chuva com trovoada, tocou a campainha da escola. Ao abrir a porta, eis que estava lá de uniforme, mochila nas costas, guarda-chuva encharcado, o aluno Antônio Aelton. Ao que ela disse: vamos entrar, a aula já começou, Ertinho respondeu: NÃO!!! Com essa chuva eu não venho, não! Tem que esperar passar! Fala pra D. Celinha que hoje não venho, não! Que responsabilidade!
Mas o ano acabou e o Ertinho tinha que mudar de turma. Ele não se conformava, queria a D. Celinha!
Um dia chegou em casa e disse que não ia mais para a escola.
Motivo?
Lá só tinha doido!
Ele queria ir na escola da Ana. Escola de doido ele não queria mais!
Aí em pleno 2020 vem o decreto 10502!
E tem gente, morador de uma terra plana que concorda com ele!
Ana Maria Costa Heto

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