sexta-feira, 9 de abril de 2021

Finalizando.... Dona Marieta e seu filho Ertinho

Ah! Que história boa de ler...... aqui ficou um gostinho de quero mais!

Gratidão à querida diretora Ana Maria Costa Heto pela contribuição com nosso blog e por dividir conosco essa linda história! Uma lição para todos!


Algumas fotos do querido Ertinho!




Essa história partiu da autora no dia da conscientização da síndrome de down!

Que a conscientização aconteça todos os dias! A luta é diária!



 Gostaria de retomar aqui a questão da escola especial.

Na época, a escola especial foi um marco, uma conquista para a cidade. O trabalho desenvolvido era maravilhoso e, por muito tempo, todos nós educadores, ao contrário do Ertinho, achávamos que a educação caminhava no rumo certo para incluir os deficientes.

Vou me reportar a algo que li no trabalho de conclusão de curso de direito de minha filha. 

Quando eu li, arrepiei. Depois entendi.

Ela, falando de audiência de custódia, dizia que a guilhotina na idade média foi uma grande evolução nos métodos de punição dos condenados.

O quê? Pensei eu!

Então voltei algumas páginas, li sobre a crucificação e tive que concordar.

Hoje, que temos audiência de custódia, os direitos humanos, guilhotina soa como absurdo.

Guardadas as devidas proporções, é assim que vejo a escola especial. Foi um laboratório para muitas aprendizagens sobre inclusão.

Antes da escola especial, as crianças deficientes eram invisíveis para sociedade. Com ela, saíram de suas clausuras vários deficientes. 

Foi a guilhotina! Foi um ato de misericórdia! Mas, hoje, soa como um absurdo!

Já houve uma caminhada enorme. Temos tantos estudos sobre o cérebro e sobre a importância das interações, as descobertas da neurolinguística.

Temos experiências, como a do Ertinho, que entendeu que ele precisava de pessoas diferentes dele para aprender. Que as interações que ele tinha eram pobres para ampliação de seu repertório.


Já contei da vida espiritual, escolar, agora vamos ver como foi o Ertinho atleta.

Perto de nossa casa, na verdade bem do lado, fizeram a Praça de Esportes. D. Marieta pensou: agora sim, vou ter um lugar para meu filho distrair.

E assim acontecia.

Pra lá, ele ia todas as tardes, às vezes com a sua bola de cobertão, outras vezes com sua bola de basquete. Já que D. Marieta investiu no atleta.

Ertinho não era muito dado aos esportes coletivos, ele gostava de jogar futebol com ele mesmo. 

Como bem disse aqui o Haroldo Dias, ele dava um balão e saía correndo para pegar!

Não admitia nem mesmo um gandula. Mas segundo o nosso leitor, ele era o único que tinha permissão para buscar a bola.

Com o basquete não era muito diferente. Ele tinha que ser o cestinha dos dois times, fazia uma cesta de um lado e corria para fazer do outro. Enfim, qualquer que fosse o esporte a quadra tinha que ser só dele.

Tudo ia bem!

Até que a D. Marieta foi chamada pela direção do clube e foi avisada que o filho não poderia mais frequentar. Isso porque havia reclamação dos demais sócios, diziam que a presença dele colocava em risco a segurança das outras crianças.

Que situação difícil!

O Ertinho não era fácil de mudar os hábitos. Já havia incorporado o passeio em sua rotina.

Foi muito sofrido!

D. Marieta precisou arrumar uma varinha de marmelo e dizer a ele que se fosse lá novamente ela teria que usar.

A opção foi ir brincar com a bola no “Campão”.

Ertinho optou pelo basquete. Todas as tardes colocava uma camiseta cavada, short, seu kichute, pegava a bola e ia jogar.

A técnica era sempre a mesma. Cestinha dos dois times. E não é que ele ficou bom? Fazia até aquelas cestas de três pontos, de fora do garrafão.

Nem tudo era calmaria!

Tinha a molecada que estudava nas escolas próximas. A maioria era bem amistosa e assistia à partida sem interferir. 

Mas tinha sempre os que o interrompiam com o grito “vai pica-pau”. Ele odiava ser chamado de pica-pau. Ganhou esse apelido pelo seu cabelo cortado pela própria mãe, no estilo Ronaldo Fenômeno na copa de 2002, tudo raspado com aquele topete na frente.

E assim seguiu a vida, até que D. Marieta, devido a uma febre na infância e às muitas emoções durante a vida, começou agravar seu quadro de cardiopata. 

Eram muitas as internações.

Ela percebeu que precisava preparar o filho para viver sem ela. Foram muitos os treinamentos: arrumar a casa, fazer café, lavar a roupa.

A abordagem utilizada nem sempre era bem sucedida.

De repente, Ertinho tirava toda as roupas limpas das gavetas e ia lavar. 

Para coar café, repetia oralmente a teoria: “a água tem de ficar pulando”, mas na prática fazia errado.

Até que um dia D. Marieta desistiu do treinamento e disse a ele: eu vou morrer e depois venho te buscar. Ele, carinhosamente, respondeu a ela: pode ir mamãezinha, eu vou ficar aqui com a Ana e com a Dinha. Dinha era a Maria Helena; na escadinha, a primeira acima dele. Recebera o apelido por ser madrinha da irmã mais nova, eu.

E assim aconteceu!

D. Marieta se foi, Ertinho ficou. Mas essa já é uma outra história!

Do Ertinho, suas irmãs e seus sobrinhos!


Ana Maria Costa Heto

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