Segue a continuação da História de Dona Marieta e seu filho Ertinho....
A vida na Fazenda Faxina
Então D. Marieta e seus filhos foram morar na Faxina!
A casa já não era tão cheia mais. Não tinha campo de bola, igrejinha, nem aglomeração nos finais de semana. A casa ficou mais triste, mas a vida continuou “linda, como sempre foi”.
A Maria Helena foi para cidade estudar. Ficava na casa de amigos. Os dois meninos mais velhos, Sebastião e João, viviam alçando voos para sair do ninho. Na maioria das vezes, caíam e dona Marieta os resgatava.
Com as idas e vindas dos filhotes maiores, D. Marieta passava a maior parte dos dias na fazenda apenas com os seus dois caçulinhas: Ertinho e Ana Maria.
Corajosa ela!
Agora, a pequena família tinha uma rotina diária, dentre elas o terço das três horas da tarde.
Às três da tarde, dona Marieta e seus pequenos se colocavam diante do altar para rezar o terço. O terço dela era feito de contas de lágrima, meio branco meio cinza. Bem gasto de tanto passar as contas.
No altar, vários santos, uns de carinha boa, outros de cara brava.
A santinha mais piedosa, era a Nossa Senhora de Fátima, toda branquinha, em cima de uma nuvem azul, mãozinhas postas, coroa na cabeça e muitos rosários pelo corpo.
Para ela, eram feitas inúmeras novenas para a proteção do Ertinho.
Ele a chamava com toda intimidade de “Fátima”. A imagem o acompanhou por toda a vida.
Quando aparecia algum vizinho ruim, namorada não aprovada para os filhos, a novena era para a Nossa Senhora do Desterro.
Para os filhos mais velhos que viviam “dando trabalho”, a novena era para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Para o Salvador que vivia nas estradas, a novena era para Nossa Senhora Aparecida.
Cada reza com seu endereço certo, de acordo com a especialidade do santo.
Tinha também a Estrela do Céu. Era uma oração escrita num papel amarelado, em forma de cruz, que ela sabia de cor e rezava toda manhã na porteira de entrada.
Não sei onde ela comprava, mas sempre tinha várias cópias. Tinha pregada atrás na porta da sala, no curral, no chiqueiro, no galinheiro e até no paiol para que nenhuma praga ou peste se aproximasse da fazenda.
Se ela ainda estivesse viva, creio que faria patuá para cada um dos filhos e netos com a oração dobradinha e uma pedra de cânfora. Amarraria com um barbante no pescoço da turma pra proteger do corona. E ai de quem tirasse!
Acredito que dever ser melhor que cloroquina! Pelo menos não tem nenhum efeito colateral.
Foi assim com a paralisia infantil e com um surto de meningite, quando surgiram essas doenças, até que surgiram as vacinas.
Dona Marieta sabia também benzer de cobreiro, espinhela caída, queimado e “costurava” quando havia alguma torção. Sim, a benzeção se chamava “costurar”, isso porque ela ia benzendo e costurando num tecido.
Chato foi a vez que tinha uma vaca mancando e ela resolveu que tinha que “costurar” para a vaca. Na benzeção ela perguntava e o doente respondia. Como a vaca não falava, adivinha quem teve que responder por ela?
Pois é! Com a D. Marieta não tinha essa de audiência pública para discutir quando a coisa tinha que ser feita, era decreto mesmo.
Benzia as tempestades também. Dizia que Deus mandava a chuva que era boa para as plantações, mas o diabo mandava o vento forte na frente para atrapalhar. Aí rezava a Salve Rainha em voz alta andando pela casa. Quando a coisa ficava feia mesmo, ela queimava umas folhas bentas e secas que ela guardava do domingo de ramos.
Na casa, para cada mal, havia um chá.
Para gripes e peito cheio, chá de cambará de espinho com flor de laranjeira. Se virasse pneumonia, emplastros de angu de fubá colocados no peito e nas costas. Depois tinha de ficar uma semana sem pegar vento e tomando água morna. Para diarreia, folha de goiabeira. O difícil mesmo era quando o chá vinha com umas gotinhas de óleo de rícino. Esse, sim, parecia ser a cura para todos os males.
E a segurança da casa?
Pense nos riscos de uma senhora com duas crianças, numa fazenda perto de uma rodovia.
Como se diz por aí, com D. Marieta “não tinha mosquito”. Qualquer problema que vinha ela resolvia.
Certa vez contratou um “camarada” desconhecido para roçar o pasto. Era tempo de quaresma. Certo dia, o rapaz disse a ela que, se à noite, por acaso ela ouvisse algum barulho, que não deveria sair lá fora, pois podia ser o lobisomem.
E não deu outra!
D. Marieta acordou à noite com o barulho das galinhas, os cachorros calados.
Seria o lobisomem?
Ela não teve dúvidas, catou seu revólver shmidt, prateado, do cano longo, que ficava guardado no fundo da caixa de roupa e mandou logo três tiros para o alto, da janela do quarto.
A Faxina estremeceu! Dizem que os tiros foram ouvidos lá nos Marques!
Do lobisomem eu não sei.
Mas o camarada que fora contratado para roçar o pasto, nem sombra, até hoje. Muitas aventuras dessa mulher!
A abordagem pedagógica
Mas vamos voltar ao Ertinho.
E qual a abordagem pedagógica utilizada por ela, agora que ele e a irmã estavam em idade pré-escolar?
Ah, eu descobri que ela utilizava muito da pedagogia Waldorf e Montessoriana.
Quer conferir?
Os brinquedos em sua maioria eram não estruturados. Sabugos, pedras, galhos de árvore. Chuchu e mamão verde viravam porquinhos, vaquinhas.
Bonecas ecológicas, de espiga de milho.
À noite, antes de dormir, depois das orações, contava histórias.
Deitava com os pequenos na grama e ficavam horas olhando para o céu, vendo com o que o que as nuvens se pareceriam.
À noite, ensinava o nome das estrelas.
Nos dias de chuva, mostrava as nuvens e explicava de que lado vinham o vento e a chuva.
As crianças também podiam participar das tarefas diárias que ela calmamente explicava.
Enquanto costurava, Ertinho e Ana Maria ganhavam retalhinhos pra fazer de conta que faziam roupinhas.
Quando ia fazer pamonha, as crianças tiravam os cabelinhos do milho.
Aos sábados forneava. Então, logo de manhã, saía com as crianças pelo pasto pegando alecrim do campo para fazer a vassoura para varrer o forno. Enquanto varria o forno quente, chamava atenção para o cheirinho que exalava.
Mostrava como arrancar minhoca, colocar no anzol e pescar no rio que passava no fundo.
Ensinava assar milho, batata doce e rebentar pipoca na brasa do fogão de lenha.
Com o Ertinho, ela fazia o que entendo que é inclusão. Ele não tinha nenhum privilégio por ser Síndrome de Down. Ela apenas aceitava que ele fizesse do jeito dele. Sendo assim ele tinha que se comportar durante as rezas, participar das tarefas diárias.
Com isso, ainda pequeno, ele aprendeu rezar, varrer a casa, estender as roupas no varal, tratar dos porcos e das galinhas! Já sabia tomar banho, se trocar e arrumar a sua cama! De vez em quando ela pegava para tirar os macucos das orelhas, mas no dia a dia ela deixava que ele mesmo se cuidasse.
Enfim, lá na roça a vida foi tranquila!
Mas a família foi pra cidade.
E agora, como a sociedade vai receber o Ertinho?
Ana Maria Costa Heto