quarta-feira, 28 de abril de 2021

O que é capacitismo?

 Essa postagem faz um importante convite:


PET Debate: Capacitismo: Você sabe o que é?

Com Professor Eduardo Lanuti

Via Google Meet. Imperdível!


#paratodosverem 

Card de fundo branco com formas geométricas nas cores amarela, roxa, verde e salmão. Em letras pretas, lê-se: capacitismo, você sabe o que é? Abaixo, em um retângulo preto, em letras brancas, lê-se: pet debate. 

Abaixo, no fundo branco e em letras pretas, lê-se o endereço para acesso à reunião Google meet: UKF-OYDO-PVA

Abaixo, lê-se: dara 30 de abril de 2021. Horário 18 h, MG e 19h DF.

Em seguida, em letras brancas em um retângulo preto, lê-se prof. José Eduardo Lanuti.

Abaixo, à esquerda do card um símbolo do Pet Enfermagem da UFMS, constituído pelo contorno da cabeça de quatro pessoas nas cores azul, roxo, verde e laranja, que parecem estar conversando. Acima delas, há três balões de fala, com as iniciais PET, sigla do Programa de Educacao Tutorial. 

Fim da descrição.



O que é Educação para todos?

     No dia 15 de abril foi transmitida pela TV UESB uma Live com a “Profa. Dra. Maria Teresa Égler Mantoan (Leped/Unicamp)”.

    A Professora Mantoan defende fortemente a escola comum para TODOS:

"As escolas abertas à diversidade são aquelas em que todos os alunos se sentem respeitados e reconhecidos nas suas diferenças, ou melhor, são escolas que não são indiferentes às diferenças".


Vale a pena conferir a Live onde a Professora discorreu sobre o tema:



ORGANIZAÇÃO: “Profa. Dra. Sirlândia Santana, Profa. Dra. Marina Helena Chaves Silva e a turma da disciplina Seminário Temático IV.

 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

O que vem por aí?

 A equipe de AEE (Atendimento Educacional Especializado) da Rede Municipal de Ensino de São Sebastião do Paraíso - MG, movimentou uma ação dias atrás com o suporte da Coordenadora Jeane Tenório e do setor de comunicação da Prefeitura Municipal.


Acompanhem os bastidores:

    


Professora Angélica



Professora Juleide

Professora Lea

Professora Shirley

Professora Daniela

Professora Renata

Professora Iraci


Aguardem! Em breve novidades...................











Formação Continuada Papo Reto 2

 

Formação Continuada com a Equipe de Inclusão de São Sebastião do Paraíso-MG- Em  02/04/2021



O tema do 2º encontro foi baseado no vídeo do LEPED- Papo Reto # 2 – Diversidade e diferença. Você sabe a diferença? Com o Profa. Dra. Maria Isabel Sampaio Dias Baptista - Unicamp – Campinas.

Nesse vídeo, a professora  Maria Isabel Sampaio Dias Baptista destaca a importância de   diferenciarmos os dois conceitos: DIFERENÇA e DIVERSIDADE. Tais conceitos não são sinônimos; pelo contrário,  estão bem distanciados  sob a abordagem de uma Escola Inclusiva.

Quando falamos em DIFERENÇA, referimo-nos às características internas. Exemplo: como nos sentimos, pensamos, agimos. Já a DIVERSIDADE diz respeito às características externas (categorias), relativas aos conceitos de notas escolares,  concepções como aluno forte e fraco,  as  raças, a  religião,  nossas características físicas, uma classificação: deficiente,  Síndrome de Down, Autismo etc,  como se as pessoas se reduzissem a uma categoria somente.

 Por isso, ao pensarmos na Escola Inclusiva, ressaltamos as diferenças, pois somos diferentes uns dos outros, e cada criança ou pessoa deve ser olhada  em sua singularidade, em sua especificidade, que vai além da deficiência. Entender o que o aluno já sabe, do que gosta, como ele faz e como ele consegue  aprender é o caminho.  Quando olharmos para o diagnóstico, devemos acreditar na possibilidade de aprender de cada indivíduo, porque todos aprendem desde que o meio/a escola  possibilite condições a partir de uma diversidade de estratégias e metodologias capazes de dar condições para todos aprenderem e se desenvolverem  mediante seu tempo e ritmo.

Devemos, portanto:

* compreender que todos podem aprender;

* diversificar as metodologias e práticas pedagógicas;

* repensar a forma de avaliação;

* trabalhar com aulas contextualizadas e significativas;

* optar por uma escola da diferença, e não da diversidade.


Lea Aparecida de Carvalho Ribeiro

Professora de AEE e Psicopedagoga.




domingo, 18 de abril de 2021

Formação Continuada com a Equipe de Inclusão de São Sebastião do Paraíso-MG

 Semanalmente, a equipe da Inclusão Municipal realiza estudo de formação com o objetivo de  melhorar o trabalho da equipe de AEE e reúne professoras que atuam  nas salas de recursos, intérpretes de Libras e monitoras de apoio.


O tema do primeiro encontro foi baseado no vídeo do LEPED- Papo Reto # 1 – Por que adaptar currículo não é incluir?   

Com o Prof. Dr. José Eduardo Lanuti, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMG) de Três Lagoas. Em 26/03/2021

             Segundo o professor Lanuti, adaptar atividades é pensar em alguns, e não em todos. Para ele, a aula do professor deve  ser pensada (planejada), a fim de que todas as crianças aprendam, levando em consideração suas condições e ritmo.

É importante compreender que o currículo é um conjunto de conteúdos programáticos destinado a  uma  série/ano em que o aluno está matriculado.  Muitos professores, por crenças preconcebidas, acreditam que devem diminuir o conteúdo, classificando os alunos como defasados, fracos, deficientes, dividindo-os em categorias muitas vezes não condizentes com a realidade e possibilidade de aprender de cada um.

Defendendo a ideia de singularidade e o jeito peculiar de cada aprendente, sabemos que cada indivíduo aprende de uma forma, conforme suas condições e de acordo com o significado que atribui ao conhecimento. 

Devemos refletir sobre essas "facilitações do conteúdo" que  são oferecidas  principalmente para os alunos público-alvo da educação inclusiva, dentro de uma mesma sala, coexistindo, ainda  hoje, as práticas segregadoras  em um mesmo espaço escolar, fato que legitima a escola da integração, e não a da inclusão. Os professores contemporâneos devem entender que o ensino e a aprendizagem são aspectos dissociados, ou seja , eles acontecem separadamente.

 

Devemos oferecer oportunidades para que:

 Ø  os alunos tenham acesso às atividades diversificadas, e não adaptadas;

 Ø  o professor:

*  faça adequação dos recursos, assegurando aos alunos a participação deles na aula e no conteúdo;

* priorize as aulas práticas;

* pense em aulas acessíveis;

* proporcione  aulas contextualizadas:

* dê ênfase na interdisciplinaridade;

* entenda qual o melhor caminho para todos os alunos aprenderem;

* derrube as barreiras do meio e não foque na deficiência dos indivíduos;

*derrube as barreiras físicas, as dos recursos utilizados (tecnológicos ou materiais) e, principalmente, as barreiras do ato pedagógico.


Lea Aparecida de Carvalho Ribeiro

Professora de AEE e Psicopedagoga



Confira o vídeo:



 


quarta-feira, 14 de abril de 2021

Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva

 14 de Abril
Dia Nacional de luta pela Educação Inclusiva

“a inclusão é o privilégio de conviver com as diferenças”
Maria Teresa Eglér Mantoan


    A luta é pela escola inclusiva para TODOS, não apenas para alunos com deficiência, mas sim para cada um com suas diferenças e singularidades!
    A escola inclusiva é plural, garante o direito de todos e trabalha para a cooperação. É necessário romper barreiras e provocar diversas mudanças!
    

domingo, 11 de abril de 2021

Dia Mundial de Conscientização do Autismo

 O Dia Mundial do Autismo, celebrado anualmente em 2 de abril, foi criado pela Organização das Nações Unidas em 18 de dezembro de 2007 para a conscientização acerca dessa questão.


    Normalmente na data de 2 de abril, as pessoas vestem azul, levantam a bandeira, fazem caminhadas e ações de conscientização. E tudo isso é válido. Porém é necessário destacar que a luta é diária, não podemos apenas participar no dia 2 de abril, essa conscientização precisa ser constante.

    Também faz parte dos objetivos de uma sociedade inclusiva olhar de forma a conscientizar a inclusão de TODOS! Cada um com suas diferenças e singularidades.

    Precisamos do dia da consciência, respeito e empatia para TODOS!

 No dia 1 de abril no Instagram da Jornalista Susana Souza (@susanasouzaoficial) aconteceu a Live Autismo e Rede especializada com a convidada Jeane Tenório - Coordenadora do setor de inclusão da Prefeitura Municipal de São Sebastião do Paraíso.


Excelente conversa! Vale a pena conferir....

https://www.instagram.com/tv/CNJI_9PnBx7/?utm_source=ig_web_button_share_sheet

    

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Finalizando.... Dona Marieta e seu filho Ertinho

Ah! Que história boa de ler...... aqui ficou um gostinho de quero mais!

Gratidão à querida diretora Ana Maria Costa Heto pela contribuição com nosso blog e por dividir conosco essa linda história! Uma lição para todos!


Algumas fotos do querido Ertinho!




Essa história partiu da autora no dia da conscientização da síndrome de down!

Que a conscientização aconteça todos os dias! A luta é diária!



 Gostaria de retomar aqui a questão da escola especial.

Na época, a escola especial foi um marco, uma conquista para a cidade. O trabalho desenvolvido era maravilhoso e, por muito tempo, todos nós educadores, ao contrário do Ertinho, achávamos que a educação caminhava no rumo certo para incluir os deficientes.

Vou me reportar a algo que li no trabalho de conclusão de curso de direito de minha filha. 

Quando eu li, arrepiei. Depois entendi.

Ela, falando de audiência de custódia, dizia que a guilhotina na idade média foi uma grande evolução nos métodos de punição dos condenados.

O quê? Pensei eu!

Então voltei algumas páginas, li sobre a crucificação e tive que concordar.

Hoje, que temos audiência de custódia, os direitos humanos, guilhotina soa como absurdo.

Guardadas as devidas proporções, é assim que vejo a escola especial. Foi um laboratório para muitas aprendizagens sobre inclusão.

Antes da escola especial, as crianças deficientes eram invisíveis para sociedade. Com ela, saíram de suas clausuras vários deficientes. 

Foi a guilhotina! Foi um ato de misericórdia! Mas, hoje, soa como um absurdo!

Já houve uma caminhada enorme. Temos tantos estudos sobre o cérebro e sobre a importância das interações, as descobertas da neurolinguística.

Temos experiências, como a do Ertinho, que entendeu que ele precisava de pessoas diferentes dele para aprender. Que as interações que ele tinha eram pobres para ampliação de seu repertório.


Já contei da vida espiritual, escolar, agora vamos ver como foi o Ertinho atleta.

Perto de nossa casa, na verdade bem do lado, fizeram a Praça de Esportes. D. Marieta pensou: agora sim, vou ter um lugar para meu filho distrair.

E assim acontecia.

Pra lá, ele ia todas as tardes, às vezes com a sua bola de cobertão, outras vezes com sua bola de basquete. Já que D. Marieta investiu no atleta.

Ertinho não era muito dado aos esportes coletivos, ele gostava de jogar futebol com ele mesmo. 

Como bem disse aqui o Haroldo Dias, ele dava um balão e saía correndo para pegar!

Não admitia nem mesmo um gandula. Mas segundo o nosso leitor, ele era o único que tinha permissão para buscar a bola.

Com o basquete não era muito diferente. Ele tinha que ser o cestinha dos dois times, fazia uma cesta de um lado e corria para fazer do outro. Enfim, qualquer que fosse o esporte a quadra tinha que ser só dele.

Tudo ia bem!

Até que a D. Marieta foi chamada pela direção do clube e foi avisada que o filho não poderia mais frequentar. Isso porque havia reclamação dos demais sócios, diziam que a presença dele colocava em risco a segurança das outras crianças.

Que situação difícil!

O Ertinho não era fácil de mudar os hábitos. Já havia incorporado o passeio em sua rotina.

Foi muito sofrido!

D. Marieta precisou arrumar uma varinha de marmelo e dizer a ele que se fosse lá novamente ela teria que usar.

A opção foi ir brincar com a bola no “Campão”.

Ertinho optou pelo basquete. Todas as tardes colocava uma camiseta cavada, short, seu kichute, pegava a bola e ia jogar.

A técnica era sempre a mesma. Cestinha dos dois times. E não é que ele ficou bom? Fazia até aquelas cestas de três pontos, de fora do garrafão.

Nem tudo era calmaria!

Tinha a molecada que estudava nas escolas próximas. A maioria era bem amistosa e assistia à partida sem interferir. 

Mas tinha sempre os que o interrompiam com o grito “vai pica-pau”. Ele odiava ser chamado de pica-pau. Ganhou esse apelido pelo seu cabelo cortado pela própria mãe, no estilo Ronaldo Fenômeno na copa de 2002, tudo raspado com aquele topete na frente.

E assim seguiu a vida, até que D. Marieta, devido a uma febre na infância e às muitas emoções durante a vida, começou agravar seu quadro de cardiopata. 

Eram muitas as internações.

Ela percebeu que precisava preparar o filho para viver sem ela. Foram muitos os treinamentos: arrumar a casa, fazer café, lavar a roupa.

A abordagem utilizada nem sempre era bem sucedida.

De repente, Ertinho tirava toda as roupas limpas das gavetas e ia lavar. 

Para coar café, repetia oralmente a teoria: “a água tem de ficar pulando”, mas na prática fazia errado.

Até que um dia D. Marieta desistiu do treinamento e disse a ele: eu vou morrer e depois venho te buscar. Ele, carinhosamente, respondeu a ela: pode ir mamãezinha, eu vou ficar aqui com a Ana e com a Dinha. Dinha era a Maria Helena; na escadinha, a primeira acima dele. Recebera o apelido por ser madrinha da irmã mais nova, eu.

E assim aconteceu!

D. Marieta se foi, Ertinho ficou. Mas essa já é uma outra história!

Do Ertinho, suas irmãs e seus sobrinhos!


Ana Maria Costa Heto

terça-feira, 6 de abril de 2021

História de Dona Marieta e seu filho Ertinho - Parte 5

E a história está a cada dia mais gostosa de se ler e muito inspiradora também! 


E hoje temos o privilégio de conhecer o Ertinho, um dos personagens principais dessa história!

Acervo Pessoal


Paramos nas fugidas e perdidas do Ertinho, não foi?

Pois bem. D. Marieta tinha que armar uma estratégia para seu filho não se perder mais.

Você não vai acreditar o quanto a mamãe sabia de inclusão!

No firme propósito de preparar o filho para a vida na cidade, ela saía com ele todos os dias. Mostrava os pontos de referência da cidade. O principal era a torre da igreja que, naquela época, podia ser vista em qualquer ponto da cidade.

Repetia insistentemente com ele: meu nome é Antonio Aelton Costa; minha casa é na Praça Dr Joaquim Mário 47, perto do Posto Guará; minha mãe é a Marieta Cezarina Silva.

Com o tempo ele aprendeu a passear!

Fazia suas visitas diárias à casa da irmã, ao cemitério para visitar o túmulo do pai, à igreja.

Um fato interessante dessa aprendizagem: quando completou a maioridade, a mãe, antes tutora, teve que se tornar agora curadora; ele teria que ser interditado. 

Sendo assim, Ertinho teve que ir à presença do juiz para comprovar a necessidade da interdição. 

E quais eram as perguntas básicas?

Qual o seu nome? Onde você mora? De quem você é filho?

Neste mini vestibular, quase que Ertinho foi aprovado e o processo arquivado. 

Por sorte, D. Marieta se esqueceu de ensinar a ele como reconhecer cédulas!

...

Ao relatar o êxodo rural da família, esqueci-me de falar sobre algo que D. Marieta   jamais deixaria para trás: seu oratório e sua legião de santos da devoção!

Ertinho fez questão de trazer a “Fátima” no colo, enroladinha numa toalhinha de linho branco bordado de Richelieu, que ficava sobre a mesa que servia de altar.

Agora na cidade, o hábito da D. Marieta de rezar o terço às três da tarde fora substituído pelas missas aos domingos e pela novena para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, todas as quartas-feiras, à noite. 

Fazia parte do Apostolado Sagrado Coração de Jesus. Tinha o compromisso todas as primeiras sextas-feiras do mês.

Vestia seu vestido azul marinho bem fechado, colocava uma fita vermelha, com um bordado do lado esquerdo. O bordado ficava num pedaço branco da fita. Era um coração vermelho cercado uma coroa de espinhos. Na ponta uma medalhinha.

O Ertinho era seu companheiro inseparável. De tanto assistir às missas, ele se dizia padre. A mãe o incentivava. Ela temia pelo início da adolescência e a iniciação sexual dele. 

Sempre que ele dizia que ia arrumar uma namorada, ela dizia a ele: não, você vai ser padre, não pode namorar!

Assim ela providenciou para ele todos os paramentos: ele tinha batinas, estolas, as taças para a consagração. A brincadeira de faz de conta era rezar a missa. Sabia todas as partes da liturgia.

Na missa verdadeira, ele sempre queria comungar, mas a mãe dizia que não poderia, que ele e a irmã eram crianças. 

Mas um dia a irmã, eu, fez primeira eucaristia e foi receber a comunhão. Ertinho não teve dúvidas. Piedosamente, pegou a fila com as mãos postas.

A mãe não sabia o que fazer!

Quando chegou a vez dele de receber a hóstia, o padre olhou seriamente para D. Marieta e desviou o cálice e a patena do menino.

Ertinho era sempre firme no propósito e não foi nada fácil convencê-lo a sair da fila.

Então, D. Marieta foi falar com o pároco. Foi falar com o Bispo, só não foi falar com o Papa.

Tinha certeza de que seu filho era um anjo, puro. Se ele não pudesse receber a comunhão, ninguém mais poderia. 

Depois de muita luta, ficou combinado que ele poderia comungar.

Na minha opinião, para a D. Marieta, a Semana Santa era a melhor época do ano. 

Mesmo quando ainda morávamos na roça, vínhamos pra cidade para participar. Ela fazia roupa nova pra todo mundo. 

Eu não entendia porque ela gostava tanto e muito menos porque tínhamos de vir. Quando criança, eu confesso que tinha medo daqueles santos de roupa roxa. Assustava com o barulho da matraca e com o cântico daquelas mulheres cobertas com um véu negro. 

Mas o pior mesmo, para mim, é que eu sabia que depois da procissão tinha a pregação. D. Marieta iria chorar muito. Eu não entendia como ela podia gostar daquilo.

O dia que ela mais chorava era a procissão do encontro, quando via Maria com aquele punhal no peito e o Cristo com a cruz nas costas.

Agora eu entendo que ela chorava todas as lágrimas que economizara pra ser firme na luta do dia a dia.

….

Uma brincadeira que o Ertinho gostava muito era a de escrever. Ele enchia inúmeros cadernos com garatujas, exatamente iguais. Então, D. Marieta pensou: quem sabe ele não aprende a ler e a escrever. O pároco da época, Monsenhor Mancini, abriu na sua escola profissionalizante, uma turma de ensino primário. A escola funcionava em um galpão onde na época era a saída para Passos. Era a escola São José, que hoje funciona lá na Vila Ipê. 

Como era uma escola filantrópica, o pároco permitiu que Ertinho frequentasse a sala. Acredito que aquela professora foi a primeira a receber um aluno com síndrome de Down nesta cidade. 

Se as escolas de hoje não estão preparadas para a inclusão, imagina aquela professora sozinha? Infelizmente não foi uma boa experiência.

As crianças ficavam muito agitados com a presença do colega diferente.

Ertinho não admitia que os colegas não obedecessem a professora e utilizava de meios nada pedagógicos para manter a disciplina.

A solução foi desistir.

….

Enfim chegou a APAE na cidade, e junto, a escola especial.

D. Marieta pensou que todos os seus problemas com a escolarização do filho estavam resolvidos. Correu pra fazer a matrícula. Na época, era o sonho de todas as mães com crianças deficientes.

E lá foi o Ertinho para a escola! Gostava demais da professora Celinha. Chegou até a aprender a letra “A”. Agora, ao invés da garatuja, fazia o “A”. Cadernos e mais cadernos cheios. 

Uma mochila cheia de cadernos que todos os dias ele levava para a escola.

Da época, muitos fatos pitorescos.

Contou-me uma funcionária que, num dia de chuva com trovoada, tocou a campainha da escola. Ao abrir a porta, eis que estava lá de uniforme, mochila nas costas, guarda-chuva encharcado, o aluno Antônio Aelton. Ao que ela disse: vamos entrar, a aula já começou, Ertinho respondeu: NÃO!!! Com essa chuva eu não venho, não! Tem que esperar passar! Fala pra D. Celinha que hoje não venho, não! Que responsabilidade!

Mas o ano acabou e o Ertinho tinha que mudar de turma. Ele não se conformava, queria a D. Celinha!

Um dia chegou em casa e disse que não ia mais para a escola.

Motivo? 

Lá só tinha doido!

Ele queria ir na escola da Ana. Escola de doido ele não queria mais!

Aí em pleno 2020 vem o decreto 10502!

E tem gente, morador de uma terra plana que concorda com ele!


Ana Maria Costa Heto

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Enfim, o Ertinho chega à cidade!



Na cidade, Ertinho usufruía de todos os passeios com a família.  

Íamos à missa, festas de casamentos, visitas à casa dos amigos da D. Marieta!

Íamos com ela ao fórum, pois, com crianças menores, tudo passava pelas mãos do juiz. 

Íamos até às visitas ao “Zé Chiquinha” na cadeia.

Com isso, o Ertinho passou a ficar muito conhecido e um dia me disseram que eu era irmã do “doidinho”. 

Acho que foi neste dia que me conscientizei da deficiência dele.

Quando eu morava na roça, não me lembro de perceber que meu irmão era diferente. Às vezes, minha mãe conversava comigo e dizia que eu devia cuidar dele.

Dizia que eu devia ficar de olho para não deixar ele fazer “arte”, mas eu não entendia bem o porquê.

Perguntei pra minha mãe por que o meu irmão era “doidinho”.  A resposta dela foi: ele não é doidinho. Ele é “retardado”. 

Imediatamente, Ertinho, que nos ouvia, retrucou: “Tadado, não”!

Pois é. Muito sabido para quem estava sendo chamado de “retardado”. Podia ter dificuldades para algumas aprendizagens, mas tinha muitas outras inteligências para serem desenvolvidas, não acham?

Sinceramente, amava meu irmão, mas me sentia diferente das outras crianças por ser irmã dele. Eu não queria que ele fosse assim. E comecei a acreditar que era a única pessoa no mundo que tinha um irmão diferente, pois não conhecia nenhum outro até minha adolescência.

Depois, descobri que existiam muitos outros, mas eles viviam escondidos, confinados dentro de suas casas.

No curso de magistério, quando D. Gilda Aloise era professora de Biologia, entendi que ele tinha um cromossomo a mais, que tinha Síndrome de Down, então expliquei para a D. Marieta.


Os problemas na cidade

Ertinho estava acostumado com a liberdade de morar na roça, podia andar, correr pela estrada. Agora teria que acostumar com o quintal de casa, e isso não foi nada fácil.

Ele saía para dar seus passeios e se perdia.

Imaginem a dificuldade para encontrar uma criança perdida na cidade?

Saíamos andando e perguntando quem tinha visto um menino e tinha que falar a descrição. E as pessoas diziam: ah, aquele “doidinho”?

Eu ficava tão constrangida em ter que responder que sim...

A busca era difícil, saía uma pessoa para cada canto da cidade e não tinha como saber se tinha sido encontrado.

Ah, que falta fazia um celular naqueles dias!

E a gente andava, andava e tinha que voltar em casa para ver se achou, e nada!

Quando começava a escurecer era terrível. Até que um “filho de Deus” como dizia a D. Marieta, chegava com ele.

E ele odiava quando era a polícia que achava!


Amanhã tem mais!


Ana Maria Costa Heto

domingo, 4 de abril de 2021

A retirada

Hoje iremos apreciar a terceira parte da História de Dona Marieta e seu filho Ertinho:


 A retirada


Em 1965, dona Marieta precisou mandar sua outra menina para a cidade. Estava em idade escolar. O Ertinho, um ano mais velho, ficou para trás. 

Agora eram as duas meninas morando sozinhas na cidade, uma de sete e a outra de 15 anos. Maria Helena estudava no período da manhã; Ana Maria no período da tarde. As irmãs se encontravam à noite. Aos sábados, de madrugada, pegavam o caminhão de leite do Sr. Geraldo Michelato e iam para a “roça”. 

Maria Helena voltava no ônibus de domingo à tarde, porque tinha aula de manhã. Ana Maria voltava no caminhão de leite na segunda de manhã, assim economizava uma passagem.

Nem passava pela cabeça das meninas e da D. Marieta o que estava acontecendo com o Brasil. As redes sociais ainda eram bem primitivas. Na cidade, à tarde, as famílias se sentavam “na porta de fora da casa” e as crianças brincavam na rua. Numa cidade pequena do interior de Minas, o assunto era outro, o que “viralizava”, na rede social “boca em boca”, era quem casou, quem morreu, quantos alqueires o “fulano” comprou. 

Evidente que na cidade tinham os não alienados, mas a informação não circulava “no boca a boca das portas das casas”.

Sei que D. Marieta, lá na roça, tinha muito medo do comunismo.

Sei que o João um dia escutou numa rádio da Argentina que o Brasil estava em estado de sítio.

Fiquei pensando o que poderia ser isso, pois o conceito de sítio que eu tinha era aquele pedaço de terra onde eu vivia.

Voltemos a nossa história.

Sobre a vida das meninas sozinhas na cidade, existem muitos fatos pitorescos. Por exemplo: como vocês imaginam que uma menina de 7 anos se orientava para saber a hora de ir para a escola?

Claro, a irmã mais velha explicou que quando ouvisse o primeiro apito da sirene da Cooperativa de leite, estava na hora de tomar banho e depois acender o fogão de lenha para esquentar o almoço que ela havia deixado pronto no dia anterior.

Como é que é? Uma menina sozinha, de 7 anos, acender o fogão de lenha? 

Isso a professora não entendia, por mais que a menina explicasse quando chegava na escola suja de carvão.

D. Marieta foi então foi chamada na escola depois de muitos incidentes com a criança.

A melhor solução foi vender a fazenda e vir morar na cidade. A renda? Viria das casas que ela compraria para alugar.

E assim fez.

A fazenda foi vendida de “porteira fechada” como se dizia.

Ficaram pra trás o pé de manacá e as lindas roseiras, por anos cultivadas no jardim.

Ficaram os arados, as antigas e enormes serras de madeira do Seu Iéca, que ela conservava, por memória afetiva. 

Ficaram as tachas de fazer farinha de milho e as de fritar o porco. As latas de colocar a carne de porco frita também ficaram. 

Ficaram o Bainho e o Baião, com os seus arreios e a capa de montaria marrom, que acompanhava a família há anos. 

Ficaram as galinhas e os porcos.

Ficou todo o gado. Todos da casa conheciam cada animal pelo nome. 

Dos animais só pôde mudar para a cidade a  “Chaninha”, uma gatinha tricolor, que as crianças não abriram mão. Os outros 7 bichaninhos ficaram para trás.

De algumas coisas, D. Marieta não abriu mão. Trouxe o pilão, o mancebo, o moedor e o torrador de café. As cuias para lavar arroz, uma enxada e um enxadão também seriam necessários para fazer uma horta.

Seria tudo muito novo e diferente.

Mas era preciso ir, sem olhar para trás. Novamente uma guinada na vida.


Ana Maria Costa Heto

sexta-feira, 2 de abril de 2021

A vida na Fazenda Faxina

Segue a continuação da História de Dona Marieta e seu filho Ertinho.... 


A vida na Fazenda Faxina



Então D. Marieta e seus filhos foram morar na Faxina!

A casa já não era tão cheia mais.  Não tinha campo de bola, igrejinha, nem aglomeração nos finais de semana. A casa ficou mais triste, mas a vida continuou “linda, como sempre foi”.

A Maria Helena foi para cidade estudar. Ficava na casa de amigos. Os dois meninos mais velhos, Sebastião e João, viviam alçando voos para sair do ninho. Na maioria das vezes, caíam e dona Marieta os resgatava. 

Com as idas e vindas dos filhotes maiores, D. Marieta passava a maior parte dos dias na fazenda apenas com os seus dois caçulinhas: Ertinho e Ana Maria.

Corajosa ela!

Agora, a pequena família tinha uma rotina diária, dentre elas o terço das três horas da tarde.

Às três da tarde, dona Marieta e seus pequenos se colocavam diante do altar para rezar o terço. O terço dela era feito de contas de lágrima, meio branco meio cinza. Bem gasto de tanto passar as contas.

No altar, vários santos, uns de carinha boa, outros de cara brava.

A santinha mais piedosa, era a Nossa Senhora de Fátima, toda branquinha, em cima de uma nuvem azul, mãozinhas postas, coroa na cabeça e muitos rosários pelo corpo. 

Para ela, eram feitas inúmeras novenas para a proteção do Ertinho. 

Ele a chamava com toda intimidade de “Fátima”. A imagem o acompanhou por toda a vida.

Quando aparecia algum vizinho ruim, namorada não aprovada para os filhos, a novena era para a Nossa Senhora do Desterro.

Para os filhos mais velhos que viviam “dando trabalho”, a novena era para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Para o Salvador que vivia nas estradas, a novena era para Nossa Senhora Aparecida. 

Cada reza com seu endereço certo, de acordo com a especialidade do santo.

Tinha também a Estrela do Céu. Era uma oração escrita num papel amarelado, em forma de cruz, que ela sabia de cor e rezava toda manhã na porteira de entrada. 

Não sei onde ela comprava, mas sempre tinha várias cópias. Tinha pregada atrás na porta da sala, no curral, no chiqueiro, no galinheiro e até no paiol para que nenhuma praga ou peste se aproximasse da fazenda.

Se ela ainda estivesse viva, creio que faria patuá para cada um dos filhos e netos com a oração dobradinha e uma pedra de cânfora. Amarraria com um barbante no pescoço da turma pra proteger do corona. E ai de quem tirasse! 

Acredito que dever ser melhor que cloroquina! Pelo menos não tem nenhum efeito colateral.

Foi assim com a paralisia infantil e com um surto de meningite, quando surgiram essas doenças, até que surgiram as vacinas.

Dona Marieta sabia também benzer de cobreiro, espinhela caída, queimado e “costurava” quando havia alguma torção. Sim, a benzeção se chamava “costurar”, isso porque ela ia benzendo e costurando num tecido. 

Chato foi a vez que tinha uma vaca mancando e ela resolveu que tinha que “costurar” para a vaca. Na benzeção ela perguntava e o doente respondia. Como a vaca não falava, adivinha quem teve que responder por ela? 

Pois é! Com a D. Marieta não tinha essa de audiência pública para discutir quando a coisa tinha que ser feita, era decreto mesmo.

Benzia as tempestades também. Dizia que Deus mandava a chuva que era boa para as plantações, mas o diabo mandava o vento forte na frente para atrapalhar. Aí rezava a Salve Rainha em voz alta andando pela casa. Quando a coisa ficava feia mesmo, ela queimava umas folhas bentas e secas que ela guardava do domingo de ramos.

Na casa, para cada mal, havia um chá. 

Para gripes e peito cheio, chá de cambará de espinho com flor de laranjeira. Se virasse pneumonia, emplastros de angu de fubá colocados no peito e nas costas. Depois tinha de ficar uma semana sem pegar vento e tomando água morna. Para diarreia, folha de goiabeira. O difícil mesmo era quando o chá vinha com umas gotinhas de óleo de rícino. Esse, sim, parecia ser a cura para todos os males. 

E a segurança da casa? 

Pense nos riscos de uma senhora com duas crianças, numa fazenda perto de uma rodovia. 

Como se diz por aí, com D. Marieta “não tinha mosquito”. Qualquer problema que vinha ela resolvia.

Certa vez contratou um “camarada” desconhecido para roçar o pasto. Era tempo de quaresma. Certo dia, o rapaz disse a ela que, se à noite, por acaso ela ouvisse algum barulho, que não deveria sair lá fora, pois podia ser o lobisomem.

E não deu outra! 

D. Marieta acordou à noite com o barulho das galinhas, os cachorros calados. 

Seria o lobisomem?

Ela não teve dúvidas, catou seu revólver shmidt, prateado, do cano longo, que ficava guardado no fundo da caixa de roupa e mandou logo três tiros para o alto, da janela do quarto.

A Faxina estremeceu! Dizem que os tiros foram ouvidos lá nos Marques!

Do lobisomem eu não sei. 

Mas o camarada que fora contratado para roçar o pasto, nem sombra, até hoje. Muitas aventuras dessa mulher!


A abordagem pedagógica


Mas vamos voltar ao Ertinho.

E qual a abordagem pedagógica utilizada por ela, agora que ele e a irmã estavam em idade pré-escolar?

Ah, eu descobri que ela utilizava muito da pedagogia Waldorf  e Montessoriana. 

Quer conferir?

Os brinquedos em sua maioria eram não estruturados. Sabugos, pedras, galhos de árvore. Chuchu e mamão verde viravam porquinhos, vaquinhas. 

Bonecas ecológicas, de espiga de milho. 

À noite, antes de dormir, depois das orações, contava histórias.

Deitava com os pequenos na grama e ficavam horas olhando para o céu, vendo com o que o que as nuvens se pareceriam. 

À noite, ensinava o nome das estrelas. 

Nos dias de chuva, mostrava as nuvens e explicava de que lado vinham o vento e a chuva. 

As crianças também podiam participar das tarefas diárias que ela calmamente explicava. 

Enquanto costurava,  Ertinho e Ana Maria ganhavam retalhinhos pra fazer de conta que faziam roupinhas.

Quando ia fazer pamonha, as crianças tiravam os cabelinhos do milho.

Aos sábados forneava. Então, logo de manhã, saía com as crianças pelo pasto pegando alecrim do campo para fazer a vassoura para varrer o forno. Enquanto varria o forno quente, chamava atenção para o cheirinho que exalava.

Mostrava como arrancar minhoca, colocar no anzol e pescar no rio que passava no fundo. 

Ensinava assar milho, batata doce e rebentar pipoca na brasa do fogão de lenha.  

Com o Ertinho, ela fazia o que entendo que é inclusão. Ele não tinha nenhum privilégio por ser Síndrome de Down.  Ela apenas aceitava que ele fizesse do jeito dele. Sendo assim ele tinha que se comportar durante as rezas, participar das tarefas diárias.

Com isso, ainda pequeno, ele aprendeu rezar, varrer a casa, estender as roupas no varal, tratar dos porcos e das galinhas! Já sabia tomar banho, se trocar e arrumar a sua cama! De vez em quando ela pegava para tirar os macucos das orelhas, mas no dia a dia ela deixava que ele mesmo se cuidasse.


Enfim, lá na roça a vida foi tranquila! 

Mas a família foi pra cidade. 

E agora, como a sociedade vai receber o Ertinho?


Ana Maria Costa Heto

quinta-feira, 1 de abril de 2021

A história de D. Marieta e seu filho Ertinho

     Nossa postagem de hoje apresenta a primeira parte dessa história de Dona Marieta e seu filho Ertinho. Em um tempo em que a inclusão não acontecia e os preconceitos eram mais visíveis, confira:


    Hoje, “Dia Internacional da Síndrome de Down, não poderia deixar de começar a contar a história de D. Marieta e seu filho Ertinho! 

No dia 29 de janeiro de 1956, na fazenda Santana do Paiol, nascia o 7º filho de D. Marieta e seu Ieca (José Aureliano). Filho temporão, a menina acima dele, Maria Helena, já estava com sete anos! Tinha o Sebastião já com doze, Salvador com quatorze, João com quinze, José com dezessete, a Noemia que deveria ter dezesseis, faleceu com dois anos de idade. Sendo assim, a mamãe já tinha muita experiência com partos, choros de recém-nascidos. Eu nasci um ano e quatro meses depois dele e vivemos juntos a história que me proponha contar. O parto, como todos os demais, foi na roça. A parteira a tia Francisca. A tesoura a mesma que havia cortado todos os outros 6 cordões umbelicais, mas ao nascer o menino, a experiente mamãe, viu que algo estava diferente, a criança não chorou! Ao olhar para a criança percebeu que ele era diferente de todos os outros, na sua vasta experiência com recém-nascidos nunca havia visto nada igual, pensou que a criança ia morrer e cuidou logo de batizar! O pai queria que se chamasse Aérton, em homenagem ao famoso apresentador de rádio Aérton Perlingeiro, mas a mãe não concordou, disse que teria que ter nome de um santo, já que ia precisar de muita proteção. Decidiram então por Antônio Aérton, mas foi registrado como Antônio Aelton e todos passaram a chamar por “Ertinho”! Desse dia em diante começou uma história de preconceitos, de discriminação e também de muita luta de uma mãe pelos direitos de seu filho com Síndrome de Down. Assim que pode, Dona Marieta e Seu Ieca, arrearam o cavalo, entraram na charrete e vieram na cidade trazer a criança ao médico para saber o que o filho tinha. Queriam entender porque a criança ficava sempre com a boquinha aberta, porque tinha aqueles olhinhos rasos que não se parecia com ninguém da família, porque chorava tão fraquinho e tinha tanta dificuldade para mamar! Acredito que esse dia foi muito triste para a minha mãe. O médico foi categórico e disse que a criança poderia morrer logo porque tinha um problema no coração, o que seria melhor porque se vivesse não iria falar, nem andar e nunca ia aprender nada, seria um imbecil, porque tinha uma “doença”, era mongoloide. Acho que foi esse nome que ele falou, não foi “síndrome de down”
. … 

Mamãe que está lendo este relato, já pensou ouvir isso? Melhor que morresse? Sem nenhuma esperança de andar, falar, aprender? Mas a D. Marieta, que era analfabeta, sabia apenas escrever o nome, não aceitou o diagnóstico, ou nos dias de hoje seria o “laudo”! Resolveu escrever outro. Eu não sei quando surgiram as fonoaudiólogas e os fisioterapeutas, mas sei quem 1956 nascia uma, por instinto maternal, na ânsia de mudar um diagnóstico, D. Marieta começou a desenvolver técnicas para estimular o filho. Movimentos com a boca, com as perninhas, bracinhos eram incansavelmente feitos com o Ertinho. Os irmãos mais velhos eram escalados para as terapias com o bebê. Com dois anos e seis meses ele andou. Valiam também todas as simpatias, promessas e benzeções para uma mamãe de muita fé! Valia até mesmo não ser ecologicamente correta, pois falaram para ela que se ele comesse a língua de um passarinho chamado “cham cham” (pica pau na verdade) ele iria falar rapidinho. Imagina se a Dona Marieta não fez a língua do bichinho na papinha pro filho!? Logo depois que andou ele começou a se expressar oralmente, no início apenas a irmã mais nova, eu, entendia o dialeto, mas com o tempo foi melhorando a fala e ampliando o vocabulário e passou a falar tanto, que ela se arrependeu de ter matado o passarinho. Por hoje, está bom! Amanhã contarei mais um pouquinho!


Ana Maria Costa Heto


Papo reto 3

  Formação com a Equipe de Inclusão de São Sebastião do Paraíso-MG- Data 09/04/2021. O tema do 3º encontro foi baseado no vídeo do LEPED- ...